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Caipiras assustadosAydano André MottaÔ povinho infeliz, esse que vive por aqui, nesta plácida república do Sul. Anos atrás, Fernando Collor de Mello nos fez o favor de informar que andamos em carroças, e que tínhamos a obrigação de nos envergonhar dos nossos carros. Pena que só tínhamos eles, porque importado era apenas para marajá como o defenestrado presidente, de tristíssima memória. Nos livramos do autor do apelido, mas continuamos andando nas mesmas porcarias, fazer o quê? Agora, sem que os brasileiros tenham feito nada a não ser tentar acertar no voto, vem o Fernando da vez, o Henrique Cardoso, dizer que o Brasil não engrena na globalização porque tem "mentalidade caipira e provinciana". Deve ser uma delícia zombar do seu próprio eleitorado, algo parecido com aquelas piadas que só provocam risadas em quem conta. Claro que FH chegou a tão prodigiosa conclusão numa de suas viagens, dessa vez a Portugal. Não, Japão. Ou seria aos Estados Unidos? Talvez a França. Enfim, um lugar aí. Devemos ser todos capiaus mesmo. Mas FH, com certeza, não é. Sujeito globalizado está ali. Pelo menos, ele pratica um bocado.
![]() Cinco mil dos caipiras de FH vivem em Brotas de Macaúbas, povoado perdido no interior da Bahia, que, até 1971, seguia na sua vidinha de quem não tem lugar na História. Quis o destino, porém, que nessa época o ex-capitão Carlos Lamarca se escondesse por lá e iradas tropas de repressão fossem no seu encalço. Caçaram o então líder da guerrilha, até achá-lo e matá-lo, em 17 de setembro, sabe-se lá Deus (ou o diabo) como. Fosse só isso, podíamos nos socorrer do argumento de que "guerra é guerra". Mas não. Tinha de sobrar, claro, para moradores do lugar, que apanharam, foram humilhados e torturados pelos militares, como se fossem ativos militantes da resistência a uma ditadura que mal sabiam existir. Agora, excelente reportagem da Folha de S. Paulo mostra que o preço pago por aquela gente inocente foi caro demais. Como uma bomba atômica que só atinge a alma, os restos da Operação Pajussara (nome da ação que matou Lamarca, liderada pelo então major Nilton Cerqueira, hoje general e caçador de bandidos mais reais no Rio), estão presentes em Brotas até hoje, um quarto de século depois. Basta ouvir o simples barulho de um helicóptero se aproximando para o povo simples do povoado tremer de medo e se esconder no buraco mais próximo. Pode ser só um fazendeirão da área voltando para casa, mas a lembrança é a eterna tortura dos desgraçados habitantes do matadouro de Lamarca.
![]() Dia 17 passado, o Você Decide, da TV Globo, visitou o mundo real, encenando a história do assassinato de PC Farias e sua namorada Susana Marcolino. Dentro das regras do programa, o povo telefonou e escolheu o final. Foi crime passional ou não? Dos 168.049 espectadores que responderam à pergunta, 34.370 disseram que sim. E 133.679 (acachapantes 79,4%) cravaram o não. Sucesso de bilheteria é isso aí. Mas parece que o povo de Alagoas se absteve de votar. Lá, não é ele quem decide.
![]() E Romário foi-se embora de volta para a Espanha. A vida por aqui ficou um pouco menos brilhante. |
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